domingo, maio 02, 2010

A Rainha dos Mares

    Vou usar o meu blog também para divulgar histórias interessantes, e que quase ninguém conhece, por não fazerem parte dos currículos escolares. Dando uma olhada no meu blog, vi que era o ingrediente que estava faltando. Espero que gostem da primeira delas...


CHENG I SAO


    Cheng I Sao (literalmente mulher de Cheng I) foi uma pirata chinesa do século XIX. Sabe-se muito pouco da sua vida antes de ganhar os mares da costa do Cantão. Há relatos de que foi prostituta antes de se casar com o pirata Cheng I.
     Cheng (o marido) tornou-se comandante supremo de uma frota pirata equivalente a frota da marinha imperial chinesa. Em seu comando haviam cerca de 70 mil homens, oitocentos navios de grande porte e mil menores. Sua frota era dividida em seis esquadrões. Cada um representado por uma cor. Cheng I controlava Esquadrão Vermelho.
    Um imediato britânico chamado John Turner foi prisioneiro de Cheng durante cinco longos meses e relatou como os prisioneiros do “rei dos mares chineses” eram tratados:
    “Eu vi um homem, preso pelos pés ao convés com grandes pregos, e depois espancado com quatro cordas trançadas juntas, até ele vomitar sangue; e, depois de permanecer algum tempo neste estado, foi levado à praia e esquartejado. Enquanto um segundo prisioneiro foi colocado de pé e teve os intestinos abertos e o coração arrancado, que eles depois mergulharam em bebida alcoólica e comeram. O corpo morto eu mesmo vi.”
     Esse relato nos mostra porque Cheng era tão temido não só por seus inimigos, mas também por sua tripulação. Porém a Natureza tratou de ensinar a ele de maneira muito dura, que mesmo com tanto poder ele não passava de um reles mortal. Diz-se que ele morreu em 1807, depois que um furacão o arremessou para fora do navio.
     Com a morte de Cheng, a sua viúva assumiu o seu lugar e se mostrou ser tão brutal e inteligente, ou talvez um pouco mais, que o seu falecido marido. Cheng I Sao teve de agir rápido após a morte de seu esposo. Garantiu a sua posição levando para o seu lado o principal aliado de Cheng, um jovem de 21 anos chamado Chang Pao. Esse jovem fora capturado quando era um adolescente de 15 anos. De pescador passou a ser pirata e logo Cheng viu que o rapaz tinha muito potencial para ser um líder, tanto que mesmo sendo muito novo já havia sido nomeado capitão. Cheng I Sao então nomeou Pao para assumir o esquadrão Vermelho, o mais poderoso e que antes fora comandado pelo seu marido.Logo em seguida iniciaram um relacionamento que culminou em casório anos mais tarde.
     Por três anos Cheng I Sao e Chang Pao dominaram a frota pirata dos mares do sul da China de maneira gloriosa. Consta que Cheng I Sao era uma negociante brilhante, Ela era extremamente organizada e enfatizava muito a venda de mercadorias saqueadas. A cobrança de resgates também era muito utilizada. Não só pessoas tinham um preço estipulado, mas também embarcações e até comunidades inteiras.
     Outra prática popular com Cheng I Sao era a “extorsão” e a “proteção”. Os comerciantes de sal logo perceberam que saia bem mais barato pagar pelos “serviços de proteção”, ao invés de terem seus navios saqueados e sua tripulação morta. O pagamento era anual e o comerciante recebia um passe. Caso ele fosse detido pelos piratas era só apresentar o passe que estaria livre para continuar sua viagem.
    Com todas transações anotadas. O Império Comercial erguido por Cheng I Sao fazia dela uma profissional em comparação com os piratas ocidentais.
    Mas como uma pirata, é evidente que os ataques e saques a navios comerciais continuaram. Cheg I Sao e seus homens saíram vitoriosos em muitas batalhas contra a marinha chinesa, que o diga o general Li-Ch’ang-keng, que durante uma batalha contra os piratas teve a sua garganta cortada pelo fogo da artilharia. Isso ocorreu em Janeiro de 1808. No final deste mesmo ano, as forças navais do governo haviam perdido cerca de 63 navios durante combates diretos com a frota de Cheng I Sao.
    Em 1810 as coisas começaram a complicar. Tudo devido às dissensões entre os próprios piratas. É que desde que Pao foi nomeado Vice-Comandante, muitos piratas mais antigos que comandavam os esquadrões ficaram insatisfeitos, dentre eles um homem chamado O-Potae. Naquele ano, Pao teve a sua frota bloqueada pelos navios imperiais. Vendo que estava em maus lençóis ordenou que O-Potae fosse resgatá-lo. Porém O-Potae se recusou. Chang Pao mesmo em desvantagem conseguiu romper o bloqueio e foi tirar satisfações com o insubordinado. Iniciou-se uma batalha entre eles, e Pao teve que se retirar depois de uma baixa de centenas de seus tripulantes.
    Sabendo que pao uniria forças com a sua esposa, O-Potae recorreu a uma prática muito comum na China do séc. XIX: pediu um indulto ao governo caso eles se rendessem. O Governo Chinês concedeu-lhe o indulto e, no devido momento, o nomeou Oficial Imperial Da Marinha Chinesa, com 8 mil de seus homens ganhando a liberdade.
    Mesmo com a perda de boa parte de seus homens, Chang I Sao continuou a saquear e pilhar navios e aldeias chinesas. Mas as coisas não estavam nada boas. A marinha imperial convocou a ajuda dos britânicos e dos portugueses contra os piratas. Diante as enormes dificuldades, Cheng I Sao passou a refletir se não seria mais viável seguir o exemplo de O-potae e pedir indulto ao governo. Porém o governo se antecipou e concedeu anistia a todos os piratas.
    Em 18 de abril de 1810 Cheng I Sao reuniu-se com o governador-geral do Cantão e lá negociaram por horas. Ficou decidido que os piratas entregariam seus navios e armas ao governo (parte do que fora saqueado continuaria sob posse dos piratas). Decidiu-se também que os homens livres de Cheng I Sao poderiam se unir ao exército imperial. Seu companheiro Chang Pao, graças a habilidade de negociação de sua esposa, conseguiu um posto de tenente na marinha imperial, ficando com uma frota particular de vinte embarcações de junco.
    Chang Pao e Cheng I Sao tiveram um filho anos mais tarde. Pao morreu em 1822, aos 36 anos de idade e possuindo a patente de coronel. Já Cheng I Sao morreu sexagenária no Cantão, onde era dona de uma “casa de jogos” que concedia diversão aos homens que iam muito além dos tabuleiros.
    Muitas informações que temos a respeito de Cheng I Sao foram registradas por Glasspoole, um britânico que ficou aprisionado por onze semanas, e contou detalhes, em um livro, de como a pirata exercia o seu posto de comandante de um dos maiores impérios piratas que o mundo já viu. Nada sabemos de sua infância e de seus traços físicos. O que sabemos é que durante três anos comandando os piratas do sul da China, Cheng I Pao nunca foi derrotada em batalha. Feito que nenhum outro pirata jamais igualou.

3 comentários:

  1. Talentoso escritor, que vai desde as mais belas poesias aos mais intelectos artigos!!!! E agora junto a sua idoneidade este jovem poeta e excepcional apaixonado professor de História traz consigo interessantes relatos de Piratas, Corsários... parte que eu assumo desconhecer por completo, e estou ávida por mais histórias que você conhece meu querido amigo, eis um tempero potente no batedeira!!!

    Beijos Carinhosos

    Verônica Dubois

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Muito legal e informativo...
    Vc tem msm um fascínio por piratas e suas aventuras né?

    Bjos!

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