domingo, março 27, 2011

Águas e Tigres: Como fazíamos sem esgoto?


- Cuidado com o tigre!


   Não estamos falando do imenso felino selvagem. Esse tigre aqui é outro. Mas como o feroz “bichano”, ninguém quer ficar perto dele... No século XIX, as cidades eram imundas. Desde a I Revolução Industrial, o crescimento desordenado dos centros urbanos trouxe uma série de problemas para as pessoas que nelas viviam. O mais grave, com certeza, era a falta de higiene. Sem um sistema de esgoto, ainda inexistente, os dejetos eram jogados de qualquer maneira, provocando transtornos até para um transeunte que tivesse o azar de passar no local errado e na hora errada.

   Assim era o cotidiano de cariocas, soteropolitanos e recifenses. O mau cheiro era habitual. Resto de comida apodrecida, vísceras de animais e as “águas servidas” (fezes misturadas à urina) eram facilmente encontradas em ruas, becos e terrenos baldios. Outro destino comum eram os rios e mangues. A coisa era tão desordenada que das janelas dos sobrados, os penicos eram esvaziados podendo acertar alguém e assim lhe dar um banho de excrementos. E dessa forma,  o lixo doméstico era jogado fora: arremessado em qualquer lugar. Quem possuía algum desafeto, ficava a espreita do inimigo e assim lhe sujava todo lançando os dejetos sobre a sua cabeça. 

   O problema era tão grave que a Câmara municipal do Recife baixou um decreto, em 1831, dizendo que o arremesso das “águas servidas” só poderia acontecer à noite, mas não sem antes a pessoa gritar por três vezes seguidas: “Água vai!”. O infrator estava sujeito a pagar uma multa e ainda indenizar a vítima que fora “banhada” involuntariamente. Porém sem uma devida fiscalização, a qualquer hora do dia podiam ser vistos os excrementos lançados dos altos dos sobrados. Toda essa atmosfera pútrida acarretava em doenças tais como a varíola, sarampo, diarréias, sarnas e febres de todo tipo. E com o aumento populacional, aumentava ainda mais os dejetos. Esse era então um trabalho para “Os Tigres”.

   Os historiadores ainda não entraram em consenso, alguns dizem que tigre era o nome dos barris de madeira ou tonéis que ficavam embaixo das escadas, ou em algum outro local escondido das casas. A finalidade desses barris era de reter as “águas sujas” para serem esvaziados quando já estivessem transbordando. Para isso utilizava-se o serviço dos escravos, que com o tonel nas costas iam despejar o seu conteúdo na beira das marés. Mas tem quem diga que os tigres eram os próprios escravos, que receberam esse nome, por ser comum o escorrimento das fezes pelas suas costas, como que formassem listras. Ao passarem, as pessoas se afastavam, tapavam os narizes, viravam o rosto, enquanto que os carregadores alertavam: “Abra o olho!”

   Foi na Inglaterra, na então charmosa e próspera Era Vitoriana, que surge o vaso sanitário e a rede de esgoto subterrânea. O Rio de Janeiro foi a terceira cidade do mundo a ter uma rede de esgotos. Antes dela só Londres e Hamburgo. Tudo começou em 25 abril de 1857, quando o Imperador D. Pedro II, assina o contrato básico de saneamento sanitário. Coube a uma empresa de capital britânico dar inicio ao projeto. Após o pioneirismo da capital imperial, outras cidades trataram de fazer o mesmo, porém com as más condições de funcionamento e o mau uso também, os tigres continuaram a solta por muito tempo, apavorando a todos com a sua aterrorizante aparência imunda...


Um comentário:

  1. ai gente,como sofreram os negros, q fizeram história, triste história, em nosso país! jamis saberia disso se n fosse p nosso prof Thiago, q ensina-nos no Batedeira, trazendo a verdade tão sordida do Brasil da escravidão!!!

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